O que é efeito “Equalizador” no mundo das armas?

Lucas Parrini
Parrini é diretor estadual do Instituto DEFESA no RJ, estudante de criminologia e segurança pública e admirador de assuntos relacionados a combate.

É claro que não. E se a idosa estivesse com uma faca? Suas chances de sucesso numa defesa aumentariam um pouco, mas ainda assim, só pelas poucas características do agressor descritas aqui é possível identificarmos logo de cara que ainda não será uma luta justa. E se o agressor é quem estivesse com uma faca? Piorou.

Uma idosa de 90 anos com 50kg precisa se defender de um homem de 25 com 80kg. Este combate está equilibrado?

Então qual é o objetivo ideal neste caso? Eliminar
completamente a ameaça: tirando o agressor de ação ou saindo do alcance do
perigo. Combate ou fuga.

Mas nem sempre isso é possível, então o ideal é aumentar as chances de defesa
da vítima a 100%, ou ao máximo possível.

Assim funciona o efeito equalizador quando falamos de arma, serve para igualar ou pelo menos, aumentar as chances da vítima. Exatamente isso ocorreu no caso onde uma cidadã de 86 anos atirou e matou um bandido que invadia seu apartamento onde haviam 3 filhas e 2 netos. Não adianta nada ter o direito de legítima defesa se não há a arma de fogo para garantir que seja possível aplica-lo (1).

Igualar pela quantidade:
Um número maior de pessoas menos preparadas, com equipamentos inferiores ou fisicamente mais fracas podem acabar igualando forças com um oponente melhor preparado, com melhor equipamento e mais forte somente pela quantidade de membros agindo. A coesão da equipe basicamente forma a essência de organizar exércitos como já explicado no artigo “O que é o fenômeno da Difusão da Responsabilidade” (2), com ênfase a citação de Ardant Du Picq:

“Quatro homens corajosos, mas que não se conhecem, não ousarão atacar um leão. Quatro homens menos valentes, mas que se conhecem bem e confiam uns nos outros e no consequente apoio mútuo, atacarão resolutamente. Nisso reside, em síntese, a ciência de organizar exércitos.” (3)

Igualar pela qualidade:
Em contra-partida, um combate pode ser igualado ou até superado com melhores equipamentos. É fácil entender: 3 carros com 5 pessoas cada, totalizando 15 pessoas invadindo um território por uma estrada contra 1 helicóptero com apenas 2 pessoas. Bom, não é difícil imaginar o quão rápido a superioridade dos equipamentos fará a vitória chegar para os dois rapazes do helicóptero. O mesmo vale para melhor comunicação, blindagem, armas, etc. E a qualidade não se resume a equipamentos, o preparo pode fazer a diferença. Uma pessoa que conhece cada metro quadrado de uma região pode muito bem conseguir se defender de um inimigo em maior número ou poder, seja pelo uso de armadilhas seja pela evasão eficiente. Foi o exemplo dado no início deste artigo, onde a pessoa mais fraca porém com maior qualidade de equipamentos aumenta suas chances. (4)

Igualar pela coragem:
Muitas vezes estamos sem alternativas. Não temos quantidade nem qualidade. Não vamos conseguir impedir o perigo. Neste caso, quando não há o que fazer, o combate iminente com um agressor que até agora parecia ter a vantagem pode ser equalizado ou até mesmo superado simplesmente pela coragem de enfrentar o medo: sua postura e sua garra podem confundir ou intimidar o inimigo. Claro que isso não é uma regra, é preciso ter cuidado que todo agressor fugirá ou desistirá só pela sua bravura, mas existem casos onde somente a postura da vítima em desvantagem é capaz de igualar um confronto antes desigual (5).

Perceba que casos como estes onde a luta era desigual mas o desafio foi superado ou o perigo afastado ou vencido pela qualidade das ferramentas disponíveis, pela quantidade de pessoas unidas ou pela simples atitude de bravura ocorreram em vários casos da história, com deste para os lendários 3 pracinhas da FEB, onde seguraram uma companhia inteira dos alemães ao se recusarem a se render. (6)

Acredito ser suficiente a esta altura todos entenderem o efeito equalizador, especialmente em crimes violentos onde o bandido tende a preferir vítimas mais fracas: quando todos podem ser parados de forma igual, não importa se é mais forte ou não e a melhor ferramenta para parar qualquer um independente do tamanho, do diploma ou da faixa e kimono que usam é a arma de fogo.

“Deus crious os homens. Samuel Colt os tornou iguais”

Nota do autor: Que fique registrado o repúdio do autor e do Instituto DEFESA para a orientação da polícia de “nunca reagir” constatada na referência 2, ao termo “jovem” usado para amenizar o correto que seria “bandido” da reportagem da referência 6 e claro, os parabéns e agradecimento a cada cidadão e cidadã que agiu em legítima defesa e aos nossos heróis da FEB!

1 – http://g1.globo.com/jornal-hoje/noticia/2012/06/idosa-de-86-anos-atira-em-assaltante-que-havia-invadido-seu-apartamento.html

2 – https://www.defesa.org/o-que-e-difusao-da-responsabilidade/

3 – Matar: um estudo sobre o ato de matar, página 205

4 – https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2019/06/18/idosa-reage-a-assalto-e-toma-a-faca-de-criminoso-em-americana.ghtml

5 – https://gauchazh.clicrbs.com.br/geral/noticia/2014/08/Idosa-de-77-anos-reage-a-assalto-em-padaria-e-mata-jovem-em-Sao-Lourenco-do-Sul-4587477.html

6 – http://www.portalfeb.com.br/contradicoes-historicas-da-feb-os-tres-herois-brasileiros-quem-sao/

Colaborador do Instituto DEFESA e curioso em criminologia e assuntos relacionados a combate e segurança.


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