O que é “Difusão da Responsabilidade”?

Lucas Parrini

Parrini é diretor estadual do Instituto DEFESA no RJ, estudante de criminologia e segurança pública e admirador de assuntos relacionados a combate.

Em grupo todo mundo é “brabo”! Mas quando está sozinho… “Não Sr.!”

Copiando o estilo do presidente do Instituto DEFESA, Lucas Silveira, vamos começar pelo básico:

Difundir significa irradiar, propagar, alastrar, espalhar. (1)
Difusão significa multiplicação, propagação. (2) Algo que se difunde é algo que vai se espalhando por aí.

Responsabilidade significa responder pelos seus próprios atos. (3) É saber que suas ações criam efeitos em si mesmo e no ambiente a sua volta e que o culpado é você.

Sendo assim, grosseiramente falando, a difusão é o famoso “vai passando de um em um”. Doenças ideológicas como o fascismo e comunismo, se difundem a partir de animais infectados, contaminando as pessoas boas a colocando em seus cérebros o pensamento que se converte em postura no dia-a-dia, de que a sua responsabilidade na verdade não é só sua. Com o tempo essas posturas viram costumes, cultura.

Toda a mecânica envolvida no ambiente, na ecologia, tem alguma (ou toda) participação, ou seja, é culpada junto com o agente. O marxista joga a responsabilidade no capitalismo (roubou por falta de oportunidade), o comunista na sociedade (bando de ignorantes que não dividem o que conseguiram), o fascista joga no Estado (isso aí é problema das autoridades). Sempre a responsabilidade, a culpa, é de alguém, é de outro.

No âmbito da criminalidade, é impossível a esta altura ninguém ter lembrando de exemplos monstruosos deste fenômeno. Quem ainda não lembrou de algum assaltante de apenas 12 anos? (4) Ou quando esfaqueou o motorista de um ônibus? (5) O culpado não é só o jovem que não tinha um celular, nem o perturbado que não aceitou a traição da companheira (6), o culpado também é o Ambiente, isto é, a sociedade.

Ao defender a idéia de que uma pessoa faz algo por causa ou sob efeito da pressão externa (estímulos) do meio em que vive, cria-se a idéia de que a culpa “é disso” ou “daquilo”. A responsabilidade é dividida e isso é um alívio para o criminoso em muitos casos, pois quando é pego, recebe tratamento de diversas fontes que visa sua defesa e impunidade. (7)

Neste ponto, assumir a responsabilidade de seus próprios atos se transforma numa mochila pesada demais onde o conteúdo é dividido entre os membros de certos grupos sociais, até mesmo algum no qual o agente faça parte, onde por motivos políticos pois é notória a indignação seletiva desses grupos, é usada para promover suas pautas de privilégios ou até mesmo para disfarçar um discurso de ódio ou algo mais grave, como o racismo (8).

Fora do âmbito das políticas racistas que estes grupos promovem, este fenômeno é prejudicial em nosso dia a dia e está conectado ao Efeito Espectador (9), pois quando algo de ruim acontece com outra pessoa, citando como exemplo rotineiro e comumente conhecido o de acidentes e assaltos, terceiros apenas observam ou travam, ficam sem saber o que fazer.

Perceba em vídeos pela internet, isso se já não ter lembrado neste momento algum caso que tenha visto com seus próprios olhos, que é muito comum em um acidente as pessoas em volta ficarem vários segundos, e não muito raro até minutos, olhando, resmungando “Nossa”, “Ó meu Deus”, “Coitado”, “Que absurdo”, enquanto este tempo deveria ser usado para já se aproximar do acidentado, fazer uma análise rápida para identificar possível ajuda imediata de primeiros socorros e em seguida já realizar as ligações ou demais atitudes relacionadas ao ato de pedir ajuda, pedir literalmente o socorro dos paramédicos.

Percebemos que ambos os fenômenos estão conectados, mas um deles que é a Difusão da Responsabilidade é usada como ferramenta política: quando as vozes que difamam e acusam infundadamente são anônimas, são de muitos, espalhados, fica difícil responsabilizarmos o indivíduo criminoso. Ora, sabemos que para penalizarmos alguém precisamos saber quem é esse alguém, caso contrário, o anonimato divide essa responsabilidade entre o grupo tornando muito mais leve o peso do erro, até mesmo do crime como homicídio. (10)

Quando cada indivíduo de um grupo se identifica com seu próximo, mais fácil fica cometer crimes e dividir a culpa de seus atos. A multidão sempre tem efeito encorajador. Esse elo facilita atos criminosos e a formação de manifestantes profissionais. Conforme foi muito bem observado pelo oficial francês e teórico militar Ardante du Picq e citado por Dave Grossman: “Quatro homens corajosos, mas que não se conhecem, não ousarão atacar um leão. Quatro homens menos valentes, mas que se conhecem bem e confiam uns nos outros e no consequente apoio mútuo, atacarão resolutamente. Nisso reside, em síntese, a ciência de organizar exércitos.” (11)

Essa observação que facilmente podemos realizar é o exemplo prático daquilo que profissionais de saúde mental, criminólogos, estudiosos e todas as áreas conectadas ao tema definem como Difusão da Responsabilidade, onde “pessoas que estão em algum grupo se sentem menos responsáveis pelos seus próprios atos em comparação a como se sentiriam se estivessem sozinhas.” (12), pois “as pressões que atuam sob as pessoas em grupos em comparação a indivíduos sozinhos fazem com que a ajuda necessária a alguém que precise tenha menos chance de ser produzida, pois a responsabilidade é dividida entre todos não sendo específica de ninguém”. (13)

Aqui entramos numa teoria do crime muito conhecida por defensores de bandidos, aqueles que querem sumir com o estuprador, por exemplo, pois o mesmo não sabe viver em sociedade ao mesmo  tempo que gritam aos quatro cantos que cadeia não resolve. Esta teoria se chama Teoria Radical do Crime, que pasmem (ou não), é de origem Marxista. (14)

Ela fomenta muito bem a idéia da Difusão da Responsabilidade, quando ignora a vontade do indivíduo criminoso e joga a culpa de seus atos na sociedade. A sociedade é a culpada, o capitalismo, a opressão,  o sistema é culpado por aquilo que o bandido fez. Perceba que ela faz algo parecido com o fenômeno deste artigo: ela divide a responsabilidade. Os mais inocentes, para não chamar de ignorantes, acabam comprando esta idéia. Os mais burros a defendem.

 

1)      – https://www.dicio.com.br/difundir/

2)      – https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/difus%C3%A3o/

3)      – https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/responsabilidade/

4) https://videos.band.uol.com.br/15477817/sp-menino-de-12-anos-participa-de-dois-assaltos-em-24-horas.html

5) https://jornaldebrasilia.com.br/cidades/adolescente-de-12-anos-e-apreendida-apos-esfaquear-motorista-de-onibus/

6) https://g1.globo.com/sp/sorocaba-jundiai/noticia/homem-mata-amante-de-companheira-com-golpes-de-violao-na-cabeca.ghtml

7) https://videos.band.uol.com.br/13013562/garoto-de-12-anos-e-detido-pela-quarta-vez-ao-assaltar-taxis.html

8) https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2017/12/1943569-movimentos-negros-repetem-logica-do-racismo-cientifico-diz-antropologo.shtml

9)      https://www.defesa.org/o-que-e-o-efeito-espectador/

10) https://www.oantagonista.com/sociedade/morre-mulher-que-inalou-fumaca-durante-protesto-contra-a-reforma-da-previdencia/

11) Matar: um estudo sobre o ato de matar, página 205

12)      https://facultystaff.richmond.edu/~dforsyth/pubs/forsythzyzniewskigiammanco2002.pdf

13)      Darley and Latané em 1968

14) Manual Esquemático de Criminologia do autor Nestor Sampaio Penteado Filho, página 94

 

Colaborador do Instituto DEFESA e curioso em criminologia e assuntos relacionados a combate e segurança.


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Publicado em Artigos

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