Tratamento térmico rudimentar para aço – Básico e sem frescura.

Márcio Batata é sobrevivencialista editor do Guia do sobrevivente e colunista de sobrevivencialismo no Instituto DEFESA.

Márcio Batata é sobrevivencialista editor do Guia do sobrevivente e colunista de sobrevivencialismo no Instituto DEFESA.

Tratamento térmico rudimentar para aço – Básico e sem frescura.

 

Se o camponês fazia em 1500, você faz hoje com muito mais facilidade.

Poder fazer as próprias lâminas é um sonho de muitos, e além disso é uma das principais habilidades de um sobrevivencialista, ora, com ferramentas você constrói coisas, construindo as suas ferramentas você dá um passo enorme rumo ao processo de autossuficiência., nesta postagem vamos tratar da tempera básica para ferramentas para pessoas comuns, ou seja sem frescuras.

 

Meu amigo pense um pouco,  que diabos você acha que um camponês em 1500 fazia com o aço que você não pode fazer hoje em sua casa? Pois é, todo mundo pode e hoje eu vou dizer como, afinal somos sobrevivencialistas, já adianto que vou usar o máximo de palavras comuns possíveis, fugindo de termos e jargões técnicos.

Decidi fazer uma postagem totalmente fora dos padrões, algo quase medieval, e vou me dar a este luxo porque sei que os comentários vão ser entupidos de centenas de explicações técnicas.

Na idade média, espadas, lanças , armaduras, peças de forjaria e etc eram feitas na unha, sem o infinito acervo de técnicas e modernidades disponíveis hoje em dia, para tanto até 80 anos atrás, todas as peças de aço feitas em pequenas localidades se serviam única e exclusivamente da sensibilidade do ferreiro.

Neste cenário antigo, espadas eram realmente submetidas a impactos aço x aço, facas tinham de durar uma vida, ou duas já que era comum ficarem de herança ao filho mais velho, outros aços temperados como o de arados, enxadas, machados tinham o mesmo destino.

Você precisa pegar um aço com uma boa quantidade de carbono em sua composição,  molda-lo na forma que quiser. Depois você coloca a peça em um fogo até avermelhar, vc encosta o aço em um imã se não grudar enfia o treco fumegante na água. Pronto você acaba de fazer a têmpera do aço e deixa-lo duro pra cacete, mas acredite, não é só isso.

Quando você aquece muito um aço, suas moléculas de carbono se expandem, ao esfria-lo abruptamente elas se contraem, só que não voltam a ser o que eram antes, elas se juntam mais, se ligam e o aço se torna mais duro, muito mais duro, a ponto de quebrar com impactos.

AQUECIMENTO

Na idade média não havia fornos a gás e forjas industriais, muitos ferreiros trabalhavam com a queima de lenha simples e ordinária, os mais “favorecidos” usavam carvão, literalmente o mesmo carvão que você usa pro churrasco e muito provavelmente o lugar que vc os queima hoje, a churrasqueira, é uma peça 800% mais tecnológica do que a antiga forja camponesa por conta de proteções térmicas como tijolos e materiais refratários. As antigas eram de pedras comuns e ordinárias ligadas com barro.

O carvão bate fácil 900ºC de queima em seu núcleo, isso é o suficiente para avermelhar o aço, mas demora, então para anabolizar a coisa antigos e atuais ferreiros injetam oxigênio e elevam a temperatura para 1200ºC ou mais, quase o ponto de fusão da maioria dos aços. Os antigos usavam um fole, profissionais usam sopradores, e qualquer um pode abanar muito ou sobrar as brasas com um secador de cabelos ou mesmo estes sopradores de churrasqueira baratinhos.

AÇO

Vou descomplicar tudo para você, se não entende nada deste assunto e mesmo assim quer fazer suas próprias ferramentas personalizadas, temperadas,  entenda de cara que ferramentas similares são feitas do aço que vc precisa. Se quer uma faca uma foice vai te dar o material, para um machado um martelo serve, para uma espada molas de caminhão ou de carro, pontas de flecha qualquer resto de aço ou de ferramentas.

RECOZIMENTO

É o que vc faz assim que escolhe o aço que quer trabalhar, vc acende sua forja, deixa muito quente e coloca a peça para avermelhar, quando o aço chegou no ponto vermelho cereja, você coloca novamente no meio do carvão e deixa lá até tudo esfriar. Vai demorar sim, mas este processo de esfriamento lento faz exatamente o oposto da têmpera, ele abre as moléculas de carbono e lenta mente deixa nesta posição, desta forma o aço fica mais “mole” facilitando o trabalho de usinagem.

Muitos ferreiros usam bigorna e porrada durante o processo de recozimento para dar forma que precisam como curvas, dobras e irregularidades, após assumir a cor cereja o aço ainda quente fica mole e moldável a marteladas, depois de esfriar lentamente a peça vai para usinagem.

USINAGEM

Com ferramentas comuns, como serras, limas, lixas esmeril, martelos e afins você dá forma ao que quer,é neste ponto que vc define o perfil de corte, detalhes, desenho detalhado etc.

Trabalho braçal ? Sim cara, os antigos poupavam o braço usando a bigorna para modelar as peças e ganhar tempo.

TEMPERA

Para temperar um aço você precisa aquece-lo a altas temperaturas e resfria-lo rapidamente. Não há segredos demais nisso, mas há macetes, se você não tem um termômetro, e de fato ele não ajuda muito em forjas a carvão por conta da dispersão de calor irregular, a melhor forma de saber o ponto de tempera é com um ímã,  o aço no ponto certo perde suas propriedades magnéticas. Tudo certo coloque o aço na água e segure-o lá até esfriar.

Pode trincar? sim pode, o macete é não deixar a água fria, mas morna, com um bom punhado de sal dissolvido, isso vai ajudar no choque térmico.

Muitos mestres das forjas usam tecnicas de tempera seletiva em facas, isso é, só mergulhar uma parte da faca no liquido que vai resfria-la, geralmente a parte do fio, deixando o dorso da peça mais mole.

Eu concordo que é uma boa estratégia para facas com espessura de torção, até 3 mm, mas facas feitas em chapas mais grossas, não vão ser “torcidas” então é uma pratica totalmente irrelevante.

Ferramentas de usinagem com talhadeiras, também recebem tempera seletiva.

REVENIMENTO

Depois de temperado o aço fica tão duro que uma queda pode quebrá-lo como vidro. Lá nos tempos antigos, o ferreiro, no fim do trabalho esperava a temperatura do carvão cair e recolocava a peça SOBRE as brasas, e não dentro delas. A peça recebia um calor menor, não suficiente para fazer as moléculas se agitarem, mas o suficiente para que se desgrudem um pouquinho.

Este pouquinho faz o aço adquirir o elemento que faltava, que é a resistência a quebra.

Se você acender o forno da sua casa, bem baixo, lá pelos 150 – 180ºC e deixar a peça por uma hora, já consegue este benefício.

Mas é só isso batata? É cara, só isso.

Desta forma você já está trabalhando com mais meios que um ferreiro medieval trabalhava e vai poder fazer uma montanha de ferramentas específicas, ou reforçar peças que dispõe, como travas, engates e etc.

Vai poder também fazer facas muito funcionais.

Agora é o seguinte, o cara vai ter que ter MUITA experiência nos meios rudimentares e simples de tratamento térmico para fazer peças comparáveis a outras com meios modernos. Mesmo entre os amadores com estruturas bem simples, muitos usam óleo ao invés de agua, tabelas de temperaturas, aços e até as colorações de revenimento, fazendo a coisa certa pro aço certo, e sim você deve consultar estas tabelas que estão na web e vc acha com muita facilidade.

Agora você deve estar pensando: “Se ele me orienta a ver as tabelas e estudar mais, porque fez esta postagem simplória?” Porque somos sobrevivencialistas amigo! Nós temos que operar nossas habilidades no cenário mais desfavorável possível e com o mínimo de recursos, e se você aprender a fazer uma faca usando lenha, agua e uma lima, meu chapa, você vai conseguir se virar em qualquer lugar, captou??!!!

Bom, é isso, eu volto em breve trazendo uma lista de materiais básicos para uma forja doméstica para peças pequenas como faca, talhadeira e etc, espero que tenham gostado e entendido o conceito da postagem, óbvio que eu adoraria ver links e comentários dando mais dicas sobre o tema e saber a opinião de vocês sobre isso.

E se você não conhece o canal do Guia, não perca tempo!

Abraços.


Publicado em Sobrevivencialismo
39 comentários sobre “Tratamento térmico rudimentar para aço – Básico e sem frescura.
  1. Alexandre disse:

    Parabéns , ótima dica , voces estão me esclarecendo muito , abraço .

  2. Carlos Eduardo Cavalante disse:

    Boa, Bats. Simples como as coisas boas devem ser. Abço.

  3. vinicis disse:

    no tratamento térmico..se tu usar aço reciclado de molas de veículos,de discos de arados, serras antigas,limas ou rolamento. E fazer o choque térmico em água mesmo que q morna e com sal, muito certo q ira trincar. os camponeses antigos mesmo, do tempos medievais tinha aços com no maximo 0,5% no teor de carbono,daí dava sim pra têmperar em água morna, agora ja esses aços que citei, q é a partir de 0,6% de carbono mais outros ligas que enrriquecem o aço como cromo e niquel, vai trincar lindamente, o aço de mola até ,talvez tu consiga se livrar da trinca, se tiver o jeito certo de saber a hra de tirar a lamina dá água! reciclem óleo queimado de motor de carro mesmo,peças nas mecanicas, q é mais garantido. se não todo seu trabalho vai por agua a baixo.

  4. Jacson Sommer disse:

    Muito bom, dicas simples, diretas e úteis.

  5. cicero disse:

    Queria agradecer ao instituto defesa e ao cara cujo nome desconheço que fez esse tutorial, há tempos busco aprender a forjar minhas próprias ferramentas, e essa parte ai era a crucial pra isso tudo, obrigado mesmo

  6. fabio disse:

    me ensina a tecnica de caldeamento?

  7. Lucas Parrini disse:

    Muito maneiro hein!
    Dá vontade até de tentar fazer uma pra aprender. :D

    Show de bola!

  8. marcelo cruz disse:

    Adorei o seu ensinamento foi mto util obrigado abraços

  9. Leonço disse:

    PARABÉNS PELO TÓPICO. AMEI, PROCURAVA EXATAMENTE ISSO.

  10. jackson luiz disse:

    parabéns pelo tópico,mto bom mesmo. esclarecedor e explicador da forma mais simples possível!

  11. Pastorio disse:

    Muito bom! Estava procurando isso!
    Quero uma ferramenta e não a encontro por ser muito antiga. Ninguém mais a fabrica. É a “enxó goiva”. Então eu mesmo resolvi fabricar a minha.

    Vou tentar

  12. Eduardo disse:

    Muito Bom!!! alguém sabe se o aço 1095 é indicado para navalhas e facas e onde eu acho em pouca quantidade? quero tentar fazer uma em casa rss
    grande abraço !!! vlw

  13. Luis Raimundo Santos Santo disse:

    Foi como vc mesmo mencionou material basico e sem frescura.

  14. Raul Silva Martins disse:

    Olá boa noite. Não fazia a mínima ideia,para que servia o íman no momento da têmpera do aço. Mas graças a sua explicação por sinal muito boa,já sei para que serve. Abraço e obrigado.

  15. oscar da cruz disse:

    caro amigo

    Gostei imensamente das suas dicas.
    Parabens

  16. ivo disse:

    Boa noite, pretendo fazê lâminas para o meu moinho de plástico, gostaria de saber se o aço 1045 serve para esse tipo de procedimento?

  17. Elton disse:

    Sempre vejo nos vídeos de forja de aço a aplicação de um pó sobre o aço aquecido. Que pó é Esse?

    • Evandro disse:

      Amigo acho q o pó que vc se refere é o borax, ele é utilizado geralmente em caldeamentos (que consiste em unir duas peças de aço da mesma ou de diferentes ligas, como é feito no aço damasco) esse pó serve para retirar as impurezas que contém no aço, isso facilitará bastante o caldeamento (união das peças) espero ter ajudado.
      Abraço!

  18. daniel disse:

    e se fazer isso com bielas ?

  19. Welliton disse:

    Gostei da explicação…simplificou bem a arte da cutelaria…valeu

  20. Igor Leonardo disse:

    Gostei pakas, sua explicação foi ótima, eu sempre quis fazer ferramentas com os antigos faziam, por isso tô fazendo mecânica no CEFET sempre pesquisei sobre esse assunto mas nunca encontrei o que eu queria, eles usam termos que eu nunca vi na vida e com a sua explicação entendi tudo. Valeu, Abraço

  21. Arno Rodolfo Scherch disse:

    Ótimo artigo, e a partir dele me surgem as perguntas: As lâminas de serrote são temperadas ou só a linha dos dentes como em algumas facas?
    Se a lâmina for temperada, esta têmpera será mais branda para manter a flexibilidade da ferramenta?
    Os dentes teriam um tratamento diferenciado?
    Poderia usar chapa de aço SAE 1070 com 1,0mm de espessura?
    Grato pela ajuda. Abraço

  22. Ramao Carlos Ribeiro disse:

    Valeu as dicas,obrigafo

  23. jonor figueiredo disse:

    muito bom mesmo, tem gente que acha que deixar algo que você, demorou a aprender, assim fácil ao acesso de qualquer um é uma coisa sem sentido, mas o que seria de nós se não tivéssemos acesso aos projetos de Leonardo da Vinci?
    gostei de como você explícou suas ideias, por isso acho que esse canal deve continuar meu amigo. acredito que ainda existem pessoas como você que passa aos outros, sem cobrar como é de costume aqui na internet…um abraço…espero a forja que vc vai postar…

  24. Adelcio disse:

    Olá,peguei um facão de fusca recortei fiz uma faca, coloquei na forja testei no ima ,quando não estava mais grudando no ima coloquei no oleo queimado e esperei esfriar, tudo certinho,fiz o revenimento no forno por duas hrs, e mesmo assim o fio da faca ficou mole, não virou um aço duro, onde será que errei pra não dar ceto?

    • Evandro disse:

      Reveniu a que temperatura?? No caso da mola de fusca que é de aço 5160 e não deve passar de 2,5mm um ciclo de 40 minutos a 180°c de revenimento já é suficiente.
      Tente cuidar pela cor da lâmina, ela fica num tom de amarelo palha, esse é o ponto do revenimento,

  25. Julio Cesar Leão disse:

    Olá Adelcio,
    Sou um apaixonado pela arte da cutelaria e assim como vc sempre faço minhas facas umas até vendo no ML, já fiz muitas facas co o “facão de suspensão de kombi” que é o do mesmo aço do Facão do fusca (5160) e todas ficaram com excelente fio de corte, será que vc errou na hora do revenimento? (2 horas) eu sempre deixo a 200º por 1 hora tente fazer isso.
    obs: Quando for temperar em óleo deixar esfriar bem não retire do óleo rapidamente isso poderia causar um choque térmico

  26. Jackson Rabelo disse:

    Márcio Batata, Gosto muito da forma que o amigo escreve como vc mesmo diz sem frescura,isso não quer dizer que não vai fica com uma qualidade bacana e uma aparência de uma faca feita por um cuteleiro se dedicando e tendo paciência para dar acabamento com certeza vai ficar show.

  27. Apicultor Walter disse:

    Meu Pai hoje com 91 anos me conta que o meu Avô usava uma mistura de óleo diesel com terra de formigueiro para temperar as mais diversas ferramentas, isto à exatamente 80 anos atrás. Ele fala que muitos Ferreiros naquela época usavam está mistura, só não se lembra qual a proporção de óleo e terra continha a mistura. Nunca li nada relacionado à isto, alguém já ouviu sobre este método de têmpera?

  28. Apicultor Walter disse:

    Foram as historias que sempre ouvi do meu Pai sobre esta habilidade do meu Avô de fabricar ferramentas que despertou em mim a vontade de aprender a forja… Estou na minha terceira lâmina. Podem me contatar pelo meu WhatsApp: 061 996273051

  29. FRANCISCO DE PAULO JANUARIO disse:

    ACHEI OTIMA A MATERIA E FUNCIONA MESMO MUITO BOM

  30. FRANCISCO disse:

    VOU TESTAR EM UMA FOICE QUE PERDEU O CORTE

  31. Marcus Vinicius Lopes Steffanello disse:

    Marcio, seu artigo foi a inspiração final que eu precisava para arregaçar as mangas e tirar da gaveta o projeto antigo de fazer uma faca artesanal. Hj, acabei o serviço, e estou plenamente satisfeito com o resultado. Suas dicas foram de extrema valia para tirar as últimas dúvidas que eu tinha quando à tempera. A linguagem direta e sem frescuras tornou o serviço muito mais simples. Valeu!

  32. jose carlos severo disse:

    Ótimo artigo, tudo o que eu precisava para criar coragem e por mãos a obra, muito obrigado.

  33. Gilberto Martins disse:

    Sempre temperamos pontas de chaves de fenda,brocas,entre outros mergulhando-as no óleo ,mas tem que ficar atento ao calor necessário para cada aço.Alguns conseguem boas temperas no cal virgem, agua salgada etc Desconheço os processos quimicos destes métodos.Mesmo para um sobrevivencialista a compreensão de certos fenômenos não pesa nada na mochila.
    Parabéns pela iniciativa.Diz-se que 2\3 da humanidade perecerão
    talvez por termos nos tornado excessivamente reféns desta sociedade de consumo.

  34. diego disse:

    Sensacional quero fazer minhas facas com disco de arado ,vocês podem me dar dicas de revenimento e tempera?

  35. Paulo Maia disse:

    Perfeito…!
    A muito procurava uma explicação como esta…
    Muito obrigado…!

  36. Edivanil Jose Perenzin disse:

    Prezado Marcio;
    Gostei das suas explicações. Aposentado, estou envolvido em construir máquinas de carpintaria e com extensão a uma forja para pequenos trabalhos artesanais. Como estou construindo um grande torno de madeira, já penso em providenciar os formões de trabalho e também, trabalhar na têmpera dos mesmos e de outras ferramentas. As suas explicações, muito ajudarão.
    Parabéns e grande abraço
    Edivanil.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*