Será que cidadãos armados (não policiais) são capazes de impedir tiroteios em massa?

Traduzido por Lucas Parrini

Original de Eugene Volokh, no Washington Post.

Apoiadores das leis que permitem os “cidadãos de bem” portarem veladamente suas armas em público, comumente argumentam que esses cidadãos em conjunto com as leis, em determinadas situações, são capazes de impedir tiroteios em massa. Quem discorda, questiona: “Se isso é verdade, quais exemplos pode me dar em que isso aconteceu?”. Algumas vezes, escuto pessoas perguntando se existe pelo menos um exemplo disso acontecendo, ou afirmando que nunca ficaram sabendo que algo assim tenha ocorrido.

Há algum tempo atrás, eu publiquei alguns exemplos, e desde então, vários outros ocorreram. Então pensei em anotá-los. Naturalmente, esses eventos são raros. Até mesmo nos Estados que permitem o porte velado, nem sempre há uma pessoa armada nas proximidades em tempo hábil para deter o tiroteio. Muitos desses tiroteios ocorreram justamente nas chamadas “Gun Free Zones” (Área Livre de Armas), como escolas, faculdades e propriedades privadas (residências e lojas) nas quais seus donos sinalizaram com uma placa que aquela área não contém ninguém armado.

Nâo existe uma centralização, um banco de dados único, para esses exemplos. Muitos deles sequer aparecem na mídia a nível nacional, principalmente quando uma pessoa má intencionada atirou e fez várias vítimas, e alguns casos são confusos, pois o atirador planejava ferir muito mais pessoas quando foi parado.

Logo abaixo, uma pequena lista de eventos recentes. Intencionalmente, a lista não contém casos onde o indivíduo que evitou o desastre era uma agente do Estado, como policial de folga, a paisana, de qualquer polícia e outros casos que poderiam nos dar a entender que era uma agente de segurança.

 

1) No início do ano, em Chicago, um motorista do Uber portava veladamente sua arma (tinha permissão para isso), quando atirou e feriu um homem armado, identificado como Everardo Custodio, que abriu fogo contra uma multidão de pessoas.

 

2) Também, no início do ano, em uma barbearia na Filadélfia, Warren Edwards disparou contra os clientes e barbeiros. Outro homem que tinha permissão para porte velado disparou contra o atirador. É claro que é impossível dizer quantas pessoas o atirador teria ferido ou matado se não tivesse sido impedido, mas como um capitão de polícia disse: “Eu acredito que ele (o homem que parou o atirador) salvou muitas vidas hoje”.

 

3) Em um hospital próximo a Filadélfia, em 2014, Richard Plotts atirou e matou o funcionário do psiquiatra que lhe atendia, e atirou e feriu seu psiquiatra, Lee Silverman. Silverman atirou de volta e tirou Plotts de ação. Novamente, é difícil ter certeza de quantas pessoas Plotts teria ferido ou matado se não tivesse sido parado, como constatou um promotor da cidade de Delaware, Jack Whelan: “Se o Dr. não estivesse armado e usado sua arma, ele estaria morto hoje, assim como eu acredito que outras pessoas naquele local também estariam.”

Um chefe de polícia de Yeadon, Donald Molineux, disse algo parecido: “O Dr. salvou vidas”.

Plotts tinha 39 munições prontas para uso quando foi preso.

 

4) Em 2012, em Plymouth, William Allabaugh matou um homem e feriu outro após uma discussão que terminou em sua expulsão de um bar.

Allabaugh voltou ao bar e se aproximou do gerente e de outro homem, Mark Ktytor, e repetidamente apontou a arma para eles. Ktytor, que tinha permissão para porte de arma (velado), atirou em Allabaugh.

“As gravações de câmeras e as evidências comprovam que o Sr. Allabaugh se virou para voltar ao bar. O Sr. Ktytor agiu, derrubando-o. Nós acreditamos que as coisas poderiam ter sido bem piores naquela noite.” Disse o promotor Jarrett Ferentino, da cidade de Luzerne.

 

5) Próximo de Spartanburg, em SC, 2012, Jesse Gates foi para sua igreja armado com uma escopeta e entrou na igreja chutando a porta da frente, mas Aaron Guyton, que tinha permissão para porte de armas (velado), sacou sua arma e apontou para Gates, enquanto outros fiéis o desarmaram.

Perceba que nessa situação, diferente das outras, é possível que o criminoso não tivesse nem a intenção de ferir alguém, mas trouxe sua arma para a igreja e entrou “bicando” a porta talvez apenas para chamar a atenção, ou para desabafar suas frustações.

Nota do tradutor: Se queria ferir alguém ou não, foi parado por outro cidadão que não se acovardou.

 

6) Em Atlanta, em 2009, Calvin Lavant e Jamal Hill invadiram um apartamento durante uma festa e renderam os participantes, obrigando-os a deitarem no chão. Depois que roubaram várias coisas, eles separaram os homens das mulheres, então, Lavant disse para Hill: “Vamos transar com essas garotas e depois a gente mata todo mundo.” e começaram a discutir sobre camisinha e a quantidade de munições que tinham em suas armas. Em dado momento, Sean Barner, um fuzileiro Naval que estava de serviço no Estado de Geórgia pelo programa “Marine Enlisted Commissioning Education  Program”, conseguiu chegar até sua mochila e pegou sua arma, atirou em Hill, fazendo-o fugir, então foi para o cômodo em que Lavant estava prestes a estuprar uma menina, levou um tiro, mas atirou de volta em Lavant, que correu e morreu momentos depois por conta dos ferimentos. Uma das garotas na festa foi atingida nessa troca de tiros.

É importante frisar que devido as circunstâncias da situação, todos tiveram uma forte convicção de que os dois iriam realmente estuprar as meninas e matar alguns, ou até todos, se ninguém os impedisse.

Este incidente nitidamente envolve um militar, mas este militar estava na festa como um civil, agiu como um civil e portava sua arma como civil (Barner tinha permissão para porte velado). Se ele estivesse em uma base militar, ele não teria essa permissão, exceto se estivesse no exercício de vigilância.

 

7) Em Winnemucca, Nevada, em 2008, Ernesto Villagomes matou duas pessoas e feriu outras em um bar cheio com 300 pessoas. Ele foi morto por um promotor que tinha permissão para porte de armas (velado). Não ficou claro se Villgomez teria matado outras pessoas, pois aparemente as mortes foram por causa de um feudo de família, e não foi descoberto se havia outros nomes na lista de Villagomez, nem se ele matou mais alguém enquanto tentava fugir.

 

8) Em Colorado Springs, Colorado, em 2007, Matthew Murray matou quatro pessoas em uma igreja. Ele foi acertado várias vezes por Jeanne Assam, uma fiel daquela igreja que trabalhava como guarda voluntária, ela é policial aposentada (foi dispensada pelo departamento a 10 anos atrás e pelo que sabemos, nunca mais trabalhou como policial). Murray, ainda no chão e gravemente ferido, cometeu suicídio, e novamente não ficou claro se ele teria matado e ferido outras pessoas se ele não tivesse sido ferido e derrubado, mas o meu palpite é que teria sim, pois aparentemente ele foi para a igreja com mais de 1000 munições (8A).

 

9) Em Edinboro, Pennsylvania, em 1998, um garoto de 14 anos chamado Andrew Wurst atirou e matou uma professora na escola de dança, e atirou e feriu vários outros estudantes. Ele tinha acabado de sair do salão de dança – carregando sua arma – , possivelmente para atirar em mais pessoas, quando ele foi confrontado pelo dono do salão de dança James Strand, que vivia ao lado e tinha uma escopeta em casa. Não sabemos se Wurst queria mesmo matar mais alguém, se queria entrar em uma troca de tiros com a polícia ou se teria matado mais pessoas se não fosse parado por Strand.

 

10) Em Pearl, Mississipi, uma garoto de 16 anos chamado Luke Woodham esfaqueou até a morte, sua própria mãe, em casa, e depois matou 2 estudantes e feriu 7 em seu colégio. Quando ele saia do colégio, ele foi detido pelo Assistente Principal Joel Myrick, que tinha ido pegar sua arma em seu carro.  Algumas informações diziam que Woodham estava indo para o colégio Pearl Junior High School para continuar os ataques.

 

É claro que existem muitos mais coisas que não sabemos entre a relação cidadão e tiroteios em massa, como:

Quantos tiroreios desse tipo teriam sido evitados se as pessoas no local tivessem permissão para portar e usar armas?

Depois que o criminoso começou os ataques, quantas pessoas feridas e mortas teriam sido poupadas por algum cidadão armado antes do criminoso recomeçar tudo de novo?

Quantas pessoas seriam feridas com a intervenção de uma pessoa armada?

Finalmente, sempre tenha em mente que tiroteios em massa em locais públicos não deveria ser o principal assunto no debate sobre armas, seja sobre mais controle, seja para menos: Esses tiroteios compõe apenas 1% da taxa de homicídios nos EUA e são raramente impedidos devido as políticas de controle de armas, uma vez que quem está planejando ferir ou matar alguém não será desestimulado a desistir só por causa de uma lei, tampouco pelas baixas chances de esbarrar com um cidadão armado naquela área.

Ainda assim, pessoas eventualmente perguntam por exemplos de algum tiroteio foi impedido por algum cidadão armado, então esses são os casos que encontrei.

Gostaria de explicar o motivo de não ter colocado nesta lista o caso de Dezembro de 2012, o tiroteio do shopping Clackamas, veja aqui (http://goo.gl/ifBOFr). Alguns casos foram retirados do site do “Crime Prevention Research Center”, embora eu tenha lido na mídia independente para escrever sobre isto.

 

Atualização do autor: Originalmente o nome do artigo era “Civis são capazes de para tiroteios em massa?”, usando a palavra “civil” eu teria excluído 2 casos, o do fuzileiro naval e do membro da Guarda Nacional. Então mudei para “Cidadãos (não policiais)” para incluí-los, pois fora de serviço, eles vivem e agem como um cidadão comum, mesmo que tenham o treinamento militar, que milhões de outros militares fora de serviço deveriam ter. Então eu separei esses dois casos para que se as pessoas quiserem ler apenas os casos de civis, podem ler apenas os outros 8 exemplos.

 

1 – http://www.chicagotribune.com/news/local/breaking/ct-uber-driver-shoots-gunman-met-0420-20150419-story.html

2 – http://www.nbcphiladelphia.com/news/local/Man-Shot-in-the-Chest-Inside-West-Philly-Barbershop-297176271.html

3 – http://www.foxnews.com/us/2014/07/26/official-suspect-in-deadly-hospital-shooting-had-lengthy-history-gun-arrests/

4 – http://citizensvoice.com/news/police-plymouth-homicide-suspect-shot-by-patron-1.1370815

5 – http://www.foxcarolina.com/story/17251517/churchgoers-subdue-gunman-at-spartanburg-church

6 – https://scholar.google.com/scholar_case?case=2054129059072688443

7 – http://www.lvrj.com/news/19257519.html

8 – http://www.nytimes.com/2007/12/12/us/12brfs-GUNMANKILLED_BRF.html?fta=y&pagewanted=print&_r=0

8A – http://www.denverpost.com/news/ci_8723969

9 – http://articles.philly.com/1998-04-26/news/25765866_1_andrew-wurst-john-gillette-science-teacher

10 – http://www.time.com/time/magazine/article/0,9171,136736,00.html


Publicado em Artigos
5 comentários sobre “Será que cidadãos armados (não policiais) são capazes de impedir tiroteios em massa?
  1. Leonardo Bianchi disse:

    Com os relatos dos promotores americanos,percebemos que a cultura de segurança nos EUA é muito diferente a do Brasil.Nos EUA os cidadãos que interviram não ação dos agressores são considerados heróis,enquanto aqui os mesmos seriam processados por homicidio,mesmo se fossem policiais comprimento com o seu dever.

    • Jeferson Silva disse:

      Leonardo, vc está correto! Aqui no Brasil existe uma (com perdão da palavra) imbecilidade politica arcaica no que diz respeito à segurança e à proteção universal da vida. Esses herois, como vc bem definiu, seriam considerados criminosos e certamente seriam assassinados na cadeia por bandidos.

  2. josias disse:

    Realmente os argumentos postados aqui pelo Instituto de defesa são realistas e práticos, enquanto que o argumento do Governo é UMA perspectiva, a que ignora a de quem convive com a violência. Sem falar que parte desta ação de desarmamento incentivou a criatividade de quem sente na pele o terror iminente de ser vítima. Alguns estudam a lei para melhor cobrarem seus direitos, alguns protestam, outros tentam e criam de forma ilegal armas. O criminoso tem a sensação de segurança, o cidadão de bem tem de insegurança. Deus! Que confusão estamos vivendo. Porque antes deveriam diminuir bastante os índices de violência para depois criarem restrições. A violência nunca esteve baseada SÓ em brigas de ruas, mas são e devem fazer parte da estatística porque deve ser banida. Aumentem a qualidade da educação, insira uma boa cultura, os políticos parem de dar péssimos exemplos(essa eu acho difícil), ou a justiça os punam com austeridade. Acho até engraçado a campanha “NÃO À CORRUPÇÃO”, É REALMENTE PRECISO DIZER QUE NÓS SOMOS CONTRA A CORRUPÇÃO???!!! SOMOS CONTRA A CORRUPÇÃO, CONTA A VIOLÊNCIA, CONTRA AS DROGAS, CONTRA O VÍCIO, CONTRA A LIBERTINAGEM QUE MUITOS CONFUNDEM COM LIBERDADE DE EXPRESSÃO, CONTRA O FANATISMO, CONTRA A SUPERSTIÇÃO, CONTRA A IGNORÂNCIA. ME DERAM UMA FOLHA PARA PREENCHER A FAVOR DA CAMPANHA “NÃO à CORRUPÇÃO”, EU TIREI MAIS DE 10 CÓPIAS PARA APOIAR E LEVEI PARA AMIGOS E CONHECIDOS! QUEREM MAIS O QUÊ! NOS DEEM MAIS DIREITOS E NÃO SÓ DEVERES! MOSTREM-NOS QUE VALE A PENA SERMOS HONRADOS, POIS É FANTASIA VIVERMOS SÓ DE IDEAIS AUTRUISTAS, SOMOS SERES VIVOS, PRECISAMOS NOS DEFENDER! OS POLÍTICOS ADORAM ALTRUISTAS!

  3. samur disse:

    Eles procuram atacar, com certeza, locais proibidos para porte de armas.
    Mais armas, mais segurança.

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