O que é o “Efeito Espectador”?

Lucas Parrini

Lucas Parrini é colaborador do Instituto DEFESA e curioso em criminologia e assuntos relacionados a combate e segurança.

“Alguém tem que fazer alguma coisa!” Sim, este alguém é você.

Quanto MAIS pessoas presenciam uma atrocidade, catástrofe ou injusta violência acontecendo, como um assalto, MENOR é a solidariedade e a força de vontade para tomar uma atitude e ajudar, em agir, em proteger.

O efeito “Espectador” é oriundo do fenômeno “Difusão da Responsabilidade”, como é chamado por provedores de saúde mental e muitos autores renomados em literatura científica, sendo um deles Dave Grossman(1), no qual o comportamento das pessoas que ficam olhando algo ruim acontecer, seja de natureza criminal (como um latrocínio) ou de força maior (incêndio), como se fossem uma platéia de algo assustadoramente curioso. Os indivíduos mergulhados neste efeito encaram-se por vários momentos com aqueles olhares que nos dizem “Ninguém vai fazer nada?” ou “Alguém tem que fazer alguma coisa”, e conforme o evento “ruim” se desenvolve, essas frases não são mais ditas pela linguagem corporal, são literalmente faladas. E é exatamente este o problema: Todo mundo pensando que alguém tem que agir, ou seja, o outro tem que fazer, geralmente termina com ninguém fazendo nada. Este é o efeito espectador em ação.

Podemos chamar de heróis aqueles indivíduos que por condicionamento ou pura coragem e iniciativa, se colocam no lugar deste “alguém”, como se um desses espectadores acordasse para a realidade e pensasse: “Opa, este alguém sou eu!”. Em um momento onde se enfrenta alguma forma de perigo, este herói traz para si a responsabilidade de proteger a vida alheia, mesmo que isso signifique arriscar a sua própria. É assim que identificamos e separamos homens de meninos, mulheres de garotinhas, cidadãos de covardes, pastores de ovelhas.

Para ilustrar, se pudéssemos redigir regras para este efeito, seriam estas:

1) Todo mundo é responsável, então todo mundo tem que fazer algo. Se ninguém faz, não serei eu que farei;

2) Já existe autoridade responsável – e paga – para fazer isso. Não é meu trabalho.

3) Alguém com mais tempo, preparo e disposição com certeza ajudará.

A primeira observação e registro deste efeito foi feito por John M. Darley e Bibb Latané em 1968 depois do assassinato de Kitty Genovese (2). Os estudos feitos em laboratórios e a série de experimentos deram origem a um dos mais fortes e replicáveis efeitos em sociologia. Um dos experimentos era de uma mulher que “entrava” em uma situação de emergência e quando havia somente uma pessoa observando, as chances dessa pessoa intervir e ajudar a mulher era de 70%. Quando haviam mais de 3 pessoas, as chances caíram para 40%.

E não precisa ser cientistas como Darley e Latané, hoje em dia é possível observar este efeito acontecendo. Em nosso escopo de atuação, que é a segurança, quantos crimes podem ser observados em vídeos e pessoalmente onde pessoas em volta observam de forma estática, sem reação alguma? O exemplo recente é de um vídeo de uma câmera de segurança que está “circulando” no Whatsapp, onde uma cidadã que foi assaltada e assassinada pelo seu ex-companheiro. No desespero, voltou para sua moto, correu, voltou, etc. Várias pessoas olhando enquanto tudo acontecia até que uma viatura de algum órgão de segurança pública chegou, acredito ser de Trânsito, mas também nada fez. Ninguém fez, na verdade. Efeito espectador.

Hoje, se estudos sérios fossem feitos a respeito deste efeito em nosso cenário, com certeza o autor citaria o medo fabricado pelos simpatizantes do “Não reaja” e o medo das represálias políticas que atuam distorcendo nosso Código Penal, onde a vítima é presa ao se proteger do agressor. O bandido é protegido, a vítima é penalizada.

Então se “para que o mal triunfe basta que os bons não façam nada”, serei ríspido em dizer que se dividimos responsabilidade, também dividimos a culpa. Toda vez que vemos um ato de violência injusta acontecendo e não fazemos nada, estamos fazendo parte daquilo, temos nossa parcela de culpa.

A este ponto já deve ter ficado fácil perceber que em uma situação onde é necessário determinada ferramenta para cessar ou ajudar em um perigo, não adianta iniciativa e treinamento por parte de alguém se não tiver a ferramenta ideal disponível. É o que acontece com motoristas de carros sem extintores e em caso de pane elétrica que resulta em incêndio, ficarão olhando, é o que acontece com violência onde somente o agressor está armado.

Que fique claro que minha intenção não é criar uma regra universal no qual todo indivíduo deva tomar para si a idéia de que é sua obrigação resolver os problemas do mundo, nem que você é policial, bombeiro, médico ou o Superman. Minha função é despertar sua consciência e iniciativa, para que se possível e se assim desejar, não permita que o mal triunfe.

Alguém tem que fazer alguma coisa. Este alguém é você.

1) Matar, um estudo sobre o ato de matar, seção 4.

2) https://en.wikipedia.org/wiki/Murder_of_Kitty_Genovese

 

 

Colaborador do Instituto DEFESA e curioso em criminologia e assuntos relacionados a combate e segurança.


Publicado em Artigos
5 comentários sobre “O que é o “Efeito Espectador”?
  1. André Lima disse:

    Acredito que também haja o caso de pessoas que não se vêem preparadas para tomar uma iniciativa e acham que podem mais atrapalhar do que ajudar. Por exemplo: aquelas que, ao ver alguém engasgando no avião, pensam que deve haver um médico a bordo que possa agir melhor que elas. Ao perceberem que não há, assumem o risco de ajudar, mesmo que possa não surtir efeito ou até piorar o quadro.

  2. Rita Cássia de Moura Nunes disse:

    Gostaria de aprender atirar

    • Lucas Parrini disse:

      Oi Rita Cássia, tudo bem?
      Só depende de você. Onde reside? Se for no RJ, deu sorte, temos muitos clubes acessíveis e encontros acontecendo. Além disso, o Instituto DEFESA promoverá futuramente um evento voltado para mulheres.
      Se for de outro estado, basta procurar um clube de tiro e entrar em contato para se informar sobre como aprender a atirar.

      Boa sorte e bons treinos!

      • Yuri disse:

        Lucas, uma dúvida que não consegui sanar de forma clara e objetiva. Sou autônomo, logo sem carteira assinada. Como então adquirir uma arma, visto que não teria como comprovar ocupação?

        • Lucas Parrini disse:

          Comprovar ocupação não precisa ser com CTPS. Anexe ao seu pedido todos os documentos que comprovem sua ocupação como autônomo (registros, guia de pagamento, etc.).

          Para ter idéia, “estudante” já é uma ocupação.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Próximos eventos
  1. Combat Rescue – Tactical Combat Casualty Care

    outubro 21 @ 8:00 - outubro 22 @ 17:00