Breve história do desarmamento, parte 4: controle de armas no mundo comunista – China

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Luiz Giaconi é empresário, escritor e jornalista formado pela faculdade Cásper Líbero; Pós-Graduado em Política e Relações Internacionais pela FESP-SP.

Nessa série de textos pretendo recontar ações de desarmamento através da história, os motivos que levaram determinados povos a fazer essa escolha e mostrar suas consequências, muitas vezes inesperadas e desastrosas. Desarmamento não é uma iniciativa nova, e os casos do passado servem, muitas vezes, como lição para o presente e para o futuro.

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Desarmamento no mundo comunista: mitos e verdades

 

Provavelmente toda pessoa favorável ao direito à posse e ao porte de armas de fogo já utilizou como argumento contrário ao desarmamento o fato de que nos países que adotaram governos comunistas ou socialistas, o desarmamento foi amplo, geral e praticamente irrestrito. Tanto para manter o povo sob controle, quanto para ter maior facilidade para eliminar as parcelas indesejáveis da população e enfraquecer toda e qualquer dissidência dentro da sociedade.

De fato, leis extremamente duras sobre o assunto eram comuns nesses países, mas, nem tudo que se costuma dizer sobre o controle de armas é completamente verdade. Controle total sobre armas de fogo é algo praticamente impossível de se conseguir. Mesmo assim, poucos lugares do mundo viram países com restrições tão fortes quanto no extremo oriente. Restrições que colaboraram para alguns dos maiores genocídios da humanidade.

 

Lições de história, filosofia e desarmamento com o camarada Mao

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“O verdadeiro poder político emana do cano de uma arma. O Partido Comunista deve comandar todas as armas. Dessa maneira, nenhuma arma comandará o Partido.” Com essas palavras, Mao Tse-tung, líder supremo do Partido Comunista Chinês, e comandante do país de 1949, ano da vitória comunista na guerra civil, até 1976, ano de sua morte, definiu a política do partido sobre as armas de fogo. E a importância que as armas tinham para os comunistas. Se o poder emana das armas, elas precisam estar nas mãos apenas daqueles que os líderes julguem confiáveis.

Mas os comunistas não foram os primeiros a tentar restringir as armas na população civil chinesa. As primeiras leis restritivas datam dos anos finais da dinastia Qing, no final do século XIX, proibindo armas longas, como rifles, na tentativa de controlar movimentos que desejavam o fim do império e a instituição de uma república. Com a queda do último imperador Qing, em 1911, foi instaurada a República da China, por Sun Yat-sen no ano seguinte. Yat-sen foi um dos fundadores do Kuomitang, o partido político de tendências nacionalistas, que controlava a política local.

Mesmo com a queda do império, diversas regiões chinesas não estavam sob controle do Kuomitang. Vários “Senhores da Guerra” (warlords) controlavam amplas regiões do país, especialmente no sul, no oeste e na Manchúria. No ano seguinte à queda do império, uma lei que proibia a importação e a posse de canhões, explosivos e rifles sem a autorização do governo central foi promulgada pelo Kuomitang, numa tentativa de enfraquecer os líderes locais não obedientes aos nacionalistas.

Chiang_Kai-shek

Com o falecimento de Yat-sen, em 1925, Chiang Kai-shek assumiu o comando das forças nacionalistas. E, ao mesmo tempo em que os “Senhores da Guerra”, que controlavam grandes porções do território chinês continuavam a ser uma ameaça ao Kuomitang, o Partido Comunista passou a representar outra ameaça, especialmente nas regiões rurais, afastadas das grandes cidades. Apoiados pelos soviéticos, os comunistas chineses, comandados por Mao Tse-tung logo controlavam grandes partes do interior chinês. Em 1927 eclodiu a guerra civil entre comunistas e nacionalistas.

Ao atacar uma nova aldeia ou pequena cidade, as tropas comunistas adotavam uma tática bastante interessante. Na maioria das vezes, sequestravam o líder local, ou alguém de sua família. Em troca de sua vida e liberdade, exigiam todas as armas dos moradores locais. Caso o pedido fosse acatado, a pessoa era devolvida e as armas levadas. Agora aquela localidade seria sempre um alvo fácil para extorsão. Algum tempo depois, as tropas comunistas repetiam o procedimento. Dessa vez, o resgate era pago em dinheiro, ou em objetos de valor. Quando os comunistas assumiam o controle definitivo daquela localidade, encontravam uma população desarmada e empobrecida, alvo fácil para qualquer projeto de socialização e perseguição política. Assim, as forças comunistas conseguiam armas e recursos financeiro para prosseguir a luta contra os nacionalistas, que em um primeiro momento, tinham ampla superioridade numérica, material e territorial.

A guerra civil foi interrompida por uma trégua, no final de 1936, devido a ameaça que o Império do Japão representava. Já controlando a Manchúria, ao norte, desde 1931, os japoneses iniciaram uma invasão completa do território chinês. Começava o teatro asiático da Segunda Guerra Mundial. Com os nacionalistas, apoiados pelos americanos, enfrentando o grosso do exército japonês, as forças vermelhas recuaram para o interior, participando apenas de pequenas escaramuças, se preservando para o momento da tomada de poder. Com a intervenção das forças soviéticas, invadindo a Manchúria ocupada pelos japoneses em agosto de 1945, e os bombardeios nucleares americanos em Hiroshima e Nagasaki, o Império do Japão se rendia. E a guerra civil entre nacionalistas e comunistas recomeçava na China.

A diferença dessa vez é que os comunistas agora estavam em condições de igualdade com os nacionalistas. Fortalecidos pelo apoio russo, pelas armas abandonadas pelos japoneses e pelo desgaste do governo de Chiang Kai-shek, em três anos Mao Tse-tung entrava em Pequim e proclamava a República Popular da China. Aos nacionalistas restou fugir para a ilha de Formosa, e manter a velha República Chinesa em Taiwan.

fuzilamento china

Ao assumir o poder, os comunistas chineses ampliaram as leis contra a posse e o porte de armas que já existiam desde a época de Sun Yat-sen. Leis mais duras e confisco de armas foram aprovados em 1951 e 1957, colaborando para gerar uma das maiores catástrofes da história. Em 1958, começaria o “Grande Salto para Frente”, um projeto megalomaníaco de socialização total das propriedades e da produção rural, seguido de uma rápida e mal sucedida industrialização forçada. Estima-se em mais de 45 milhões de mortos, entre fuzilados, por trabalhos forçados ou pela fome criada pelo caos econômico.

Mas, graças as paranoias do camarada Mao Tse-tung, armas não eram algo completamente distante do civil comum, especialmente dos adolescentes. Durante a Revolução Cultural, tropas de jovens foram treinadas e armadas com pistolas e rifles, como uma gigantesca guarda pretoriana do líder chinês. O distanciamento e estremecimento na relação bilateral com os soviéticos após a morte de Stalin, a presença americana na Coréia do Sul, Japão e Vietnã, além de Taiwan, ainda sobre o comando de Chiang Kai-shek eram as ameaças para Mao. No front interno, comunistas moderados, dentro do partido que culpavam Mao pelo caos no qual o país se encontrava eram o alvo. Milhares de guardas vermelhos armados atacaram, torturaram, humilharam publicamente e mataram antigos líderes do Partido Comunista que haviam caído em desgraça perante Mao.

guardas vermelhas treinamento

            A situação só começou a se acalmar definitivamente com a visita do então presidente americano Richard Nixon, em 1972, no início do reestabelecimento das relações diplomáticas entre os dois países. Mao Tse-tung comandaria a República Popular da China até o ano de sua morte, em 1976. Durante o seu comando, estima-se que mais de 70 milhões de pessoas foram mortas.

 

Posse de armas na China: a situação atual

 

Na China atual, a posse de armas ainda é duramente controlada, mesmo com a abertura econômica e social que se deu sob o comando de Deng Xiaoping, um dos sucessores de Mao. A posse de armas é vedada para a maioria da população.  A última lei sobre o tema data de 1996. As exceções são indivíduos que trabalham nas forças militares, policiais e funcionários do judiciário, como juízes, promotores e seguranças particulares em serviço. Pessoas que não trabalham em nenhuma dessas áreas só podem ter acesso a armas de fogo para caça ou esporte. Caçadores são obrigados a manter seus rifles dentro das reservas de caça, não podendo levar suas armas para casa.

Violações na lei contra armas são passíveis de até sete anos de detenção. Para ofensas mais graves, como fabricação, venda, transporte e armazenamento de armas de fogo, explosivos ou munições, a pena varia de dez anos de detenção até prisão perpétua, ou até mesmo a pena de morte em casos extremos, como roubo de armas, ou assaltos a mão armada.

 

 


Publicado em História
4 comentários sobre “Breve história do desarmamento, parte 4: controle de armas no mundo comunista – China
  1. Luciano disse:

    Gostarias das fontes se possível.

  2. francisco benoni batista disse:

    um governo sério, respeita o direito de defesa a vida, o que o governo petista fez foi retirar este direito. o caminho usado para os déspotas para se perpetuar no poder é este enfraquecendo a população civil e todos os que lhes ameaçam, por isso exército brasileiro está hoje sucateado sendo agora o ultimo passo silenciar a impressa, para aí sim, mostrar sua verdadeira face.

  3. Mao Tse Tung disse:

    Quando Mao Tse-Tung falou sobre as armas não controlarem o Partido, não estava falando de uma ameaça externa e nem literal. Ele se referia a que os planos militares não podiam ser colocados rm primeiro plano, mas sim os planos políticos eram os primordiais. Usando na metáfora, tão comum no chinês, se referindo a política com a expressão “Partido” e aos planos militares (do Exército Comunista) com a expressão Partido”armas” ou “fuzil”. No demais, as armas e o armamento existia sim nas mãos dos camponeses e dos operários, dos pequenos proprietários da cidade, enfim, era possível para a grande maioria do povo. Há de entender que não era viável nem responsável, num período de guerra, armar os inimigos (grandes proprietários de terras e etc.). Mas a grande maioria do povo tinha possibilidade de armar-se, alguns partidos não comunistas tinham até exército e participaram no governo de Mao.
    E não foram as tropas nacionalistas que expulsaram os invasores japoneses, foram os comunistas. Não a toa, com o fim da Segunda Guerra, o nordeste da China estava sob comando do PC da China, através do general Lin Biao. Se a causa é pelo armamento da população, que eu,como comunista apoio amplamente, então não há cabimento esse tipo desmedido de falsificação histórica.

  4. Francisco Pinheiro disse:

    Facilitaria para quem lê e ficaria muito mais persuasivo se todos esses textos tivessem fontes,muitas fontes,igualmente confiáveis.

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