A imprensa e as armas

Luiz Giaconi é empresário, escritor e jornalista formado pela faculdade Cásper Líbero; Pós-Graduado em Política e Relações Internacionais pela FESP-SP.

Volte no tempo, até 2005. Ano da votação do nefasto Referendo do Desarmamento. Lembra-se qual foi a posição amplamente majoritária da imprensa na época? Como era a formação de opiniões, através da nossa imprensa, que gosta de posar de isenta? Como eram transmitidas as supostas opiniões divergentes, como qualquer manual de bom jornalismo ensina a fazer? Qual era o espaço dado aos dois lados? Havia jornalismo, ou apenas propaganda panfletária para apenas um dos lados? E hoje, nove anos depois, alguma coisa mudou no tratamento que a imprensa nos dá?

Quase total apoio à causa desarmamentista. Organizações Globo na vanguarda, os mais fanáticos contra a posse de armas pelo cidadão comum. Rede Globo, jornal O Globo, rádio CBN, revista Época, todos na linha de frente pró desarmamento. Talvez o fato de João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo ser da diretoria do Movimento Viva Rio – um dos maiores entusiastas da causa – tenha ajudado no engajamento total. Nos intervalos comerciais dos programas da TV Globo, vinhetas que defendiam o desarmamento passavam e incentivavam a entrega das armas. O lado contrário não teve essa boa vontade da “Poderosa”.

Nos outros grandes meios de comunicação, a situação não era muito diferente. Folha de S. Paulo e O Estado de São Paulo assumiram uma posição que quem trabalha com comunicação conhece muito bem. Chamo de “isentismo com causa”. Da mesma forma que posam de isentos e equilibrados, sem assumir um dos lados da consulta, nas matérias e reportagens apoiavam veladamente o lado pró desarmamento.

Isso se dá de uma maneira muito simples e comum no jornalismo da Folha e do Estadão. Ao escrever uma matéria, o jornalista se utiliza de várias fontes, como entrevistas, dados, testemunhos, informações de assessoria de imprensa e tudo mais que conseguir apurar. Para fazer uma matéria tendenciosa, que não parece tendenciosa, basta entrevistar os dois lados. E dar mais espaço na versão final ao lado que você quer defender. Ou “ensanduichar” a opinião que você quer ver diminuída entre duas opiniões que você quer promover.

Qualificando o entrevistado é outra opção de demonstrar o seu “isentismo com causa”. Enquanto o que defende a posição pró desarmamento era apresentado com todas as loas acadêmicas que possuía, quase como um Einstein renascido, o pobre coitado que servia como fonte contrária, contra desarmamento, era mostrado pela imprensa como um sujeito muitas vezes tosco e pouco estudado. Que provavelmente receberia dinheiro das empresas de armas, e não agia por acreditar na causa que defendia. Ao mesmo tempo em que o financiamento de ONGs nacionais e estrangeiras, com os interesses mais diversos no desarmamento brasileiro, era quase sempre esquecido, visto apenas como um detalhe. Afinal, esse dinheiro entrava para “um bem maior”.

Existem outras maneiras de diminuir e enfraquecer a imagem de quem você quer atacar, menos sofisticadas e mais explícitas. Como fazer a caricatura daquele que discorda da opinião que seu jornal quer subliminarmente defender. Por exemplo, chamar o grupo de parlamentares que defende a posse de armas pelo cidadão de “Bancada da Bala” é uma forma. Nunca vi na imprensa, especialmente na Folha, Estadão ou Rede Globo, uma referência à “Bancada da Maconha”, “Bancada do Aborto” ou “Bancada da Censura à Mídia”. Transformar seu inimigo numa caricatura é a forma mais fácil de desmoralização perante a sociedade.

Mas, justiça seja feita, nem todos se portaram dessa maneira vergonhosa. A revista Veja se colocou uma posição contra o Estatuto do Desarmamento, mesmo que de uma maneira tímida. E a Rede Bandeirantes, através de suas emissoras de rádio e TV, se mostrou totalmente contrária ao que ocorria. Tiveram a coragem de remar contra a maré, e mostrar o engodo no qual boa parte da imprensa queria que o povo acreditasse.

E qual a razão de tamanho preconceito sobre o temas armas, desarmamento e defesa pessoal entre o meio jornalístico? Algumas teorias podem ser formuladas por quem conheceu a realidade dos bancos de uma faculdade de comunicação e de algumas redações. A primeira delas é a ignorância. Ao mesmo tempo em que no Brasil morrem mais de 50 mil pessoas assassinadas por ano, esse fato é pouco comentado e estudado nas faculdades de jornalismo. O jornalismo policial, onde o aluno teria um aprendizado maior sobre legislação, crimes, armas e contato com as forças policiais, é uma atividade praticamente esquecida e renegada nas aulas. No meu caso, tive a sorte de fazer parte de uma família de policiais para não precisar (e sentir falta), do que não me foi, e deveria, ter sido ensinado na faculdade.

Outra teoria que pode ser formulada é o do preconceito contra armas e assuntos relacionados. Comparativamente com alguns outros países, especialmente os EUA, temos pouco contato com armas de fogo. Não é incomum conhecer pessoas que jamais viram, ou tocaram em uma. E quando viram, foi numa situação de crime, na qual provavelmente foram vítimas. Isso é extremamente comum no meio jornalístico. E geralmente, aqueles com maior desconhecimento, são colocados para trabalhar no tema. Certa feita, quando trabalhava em uma rádio, uma colega veio me pedir ajuda. Precisava transmitir uma notícia sobre um assalto e sobre a arma apreendida. Ela achava que a informação estava com um erro. Afinal, não sabia o que era e o que significava o ponto (.40) na frente do tipo do calibre da arma. Situações como essas são corriqueiras em redações.

A batalha pela informação e conhecimento, inclusive na nossa imprensa, é fundamental para que as causas da defesa pessoal, da posse de armas e contra o desarmamento, sejam vitoriosas no nosso país. A ignorância é o pior dos nossos inimigos.

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6 comentários sobre “A imprensa e as armas
  1. Antonio João de Freitas disse:

    Estamos vivendo uma anarquia no Brasil,,onde vemos as instituicões falidas,,,a OAB- sem forcas junto ao governo Ditador socialista, centralizando o poder,,,para que os cidadãos perca seu direito de defesa ,,do seu comercio de sua familia. quando correm livres os marginais fortemente armados roubam quem pagam honestamente seus impostos.

  2. Victor disse:

    Disse tudo. Muito esclarecedor. Finalmente entendi porque tantas informações incorretas sobre armas neste país. “Não é incomum conhecer pessoas que jamais viram, ou tocaram em uma. E quando viram, foi numa situação de crime, na qual provavelmente foram vítimas”.

  3. Daniel Ribeiro disse:

    FAN-TÁS-TI-CO este artigo. Expressa muito bem o que acontece nas “redações” e – porquê não – em quase toda a sociedade.

    Uma mentira repetida 1000 vezes se torna verdade. E o papel deles é este: subverter a verdade.

    Eu só não entendo ainda QUEM ganha com isso, e porque fazem isso. Seria muito melhor se a mídia fizesse par com os interesses da população.

  4. Mariana Nascimento disse:

    Olá, por gentileza, você poderia me passar seu e-mail para o envio de uma carta da Associação da Indústria de Armas e Munições sobre este artigo?

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